A casa onde Luiz Inácio Lula da Silva viveu parte da infância continua de pé em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá, mais de 70 anos depois da chegada da família à região. Segundo Marcos Romor, a reforma do imóvel preservou partes da estrutura antiga.
Lula deixou o Agreste de Pernambuco em dezembro de 1952, aos sete anos, com a mãe e os irmãos. De acordo com a apuração, a viagem em um caminhão pau de arara durou 13 dias até o litoral paulista.
Em Guarujá, Lula trabalhou ainda criança e começou a estudar em 1954, na Escola Estadual Marcílio Dias. A família deixou o município em 1956 e se mudou para a capital paulista.
A trajetória ligada à casa também passa por Santos, onde foram feitos os registros civis de Lula e dos irmãos, e por Vicente de Carvalho, onde o pai do presidente morreu em 1978. A reportagem aborda a preservação do imóvel e episódios da infância e da vida familiar no litoral.
Imóvel em Vicente de Carvalho preserva partes da construção antiga
O imóvel fica na antiga região de Itapema, nome usado para a área que hoje corresponde a Vicente de Carvalho, em Guarujá. A casa tem cerca de 100 anos, segundo Marcos Romor, cuja família está ligada à propriedade há décadas.
Os avós de Romor compraram a residência na década de 1980. Eles eram amigos do antigo proprietário, conforme o relato do atual dono.
Depois da morte dos avós, Romor comprou a casa dos tios e fez uma reforma. A construção tem três quartos, sala, cozinha e banheiro, e a mãe dele mora no local; na obra, ele manteve intacta a parte do chalé e preservou elementos como uma parede de madeira e os fundos da residência.
A saída do Agreste e a chegada da família ao litoral paulista
Em 1945, Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como Dona Lindu, viviam no sítio Vargem Comprida, em Caetés, no Agreste pernambucano. A seca prejudicava as lavouras e dificultava o acesso a alimentos e água.
Com Dona Lindu grávida de oito meses e os seis filhos, Aristides decidiu seguir para São Paulo em busca de trabalho. No litoral, conseguiu emprego como carregador de sacas de café em um armazém de Santos.
Durante esse período, Aristides levou consigo, sem que Dona Lindu soubesse, Mocinha, prima da mulher, então com 15 anos e grávida dele. Os dois passaram a morar em uma casa de madeira em Vicente de Carvalho, em Guarujá.
Em 1950, Aristides voltou a Pernambuco e reencontrou os filhos; depois, retornou ao litoral acompanhado de Jaime, irmão de Lula. Dois anos mais tarde, Dona Lindu vendeu a casa e os poucos pertences da família e partiu com as crianças para encontrar o marido.
Trabalho e início da vida escolar em Guarujá
A casa de madeira em que Dona Lindu e os filhos foram morar não tinha água encanada nem energia elétrica, segundo a jornalista e escritora Denise Paraná, autora do livro Lula, o filho do Brasil. A descrição também menciona a falta de um poço nas proximidades.
Para ajudar nas despesas, Dona Lindu recolhia grãos de café que caíam nas calçadas dos armazéns do Porto de Santos e os vendia. Lula e o irmão Frei Chico também comercializavam amendoim, tapioca e laranjas no cais.
Mais tarde, Lula trabalhou como engraxate no Centro de Santos. Em Guarujá, frequentava a escola sem o conhecimento do pai, que era contrário aos estudos e havia proibido os filhos de estudar e brincar.
Em 1955, Dona Lindu decidiu se separar de Aristides. Na mudança para a capital paulista, a família se instalou na Vila Carioca, no distrito do Ipiranga, em um pequeno cômodo nos fundos de um bar arrendado por um tio.
Registros civis, história familiar e retornos de Lula à cidade
Os documentos de Lula registram seu nascimento em 6 de outubro, enquanto ele comemora o aniversário em 27 de outubro. A divergência é associada às dificuldades que a família enfrentava para registrar os filhos pouco depois dos nascimentos, em razão da distância dos cartórios e das condições de vida no interior pernambucano.
Os registros foram feitos posteriormente em Santos. Frei Chico contou que Dona Lindu levou ao cartório uma lista com nomes e datas, mas se confundiu durante o atendimento; segundo ele, ela ficou intimidada quando a escrivã sugeriu trocar o nome Sebastiana pelo próprio nome, Ruth.
Aristides trabalhou por mais de duas décadas no Porto de Santos como ensacador de café. Nos últimos anos de vida, enfrentou problemas relacionados ao alcoolismo e, segundo o Instituto Lula, foi sepultado como indigente.
Já presidente, Lula voltou a Guarujá em diferentes ocasiões e se hospedou no Forte dos Andradas, complexo militar de acesso restrito que abriga a Praia do Monduba. As visitas ocorreram em abril de 2006, janeiro de 2007, fevereiro de 2008 e janeiro de 2010; em janeiro de 2011, já fora da Presidência, ele passou cerca de 12 dias no local com filhos e netos, a convite do Ministério da Defesa e do Exército.


